SURGIMENTO DO QUARTEL DE SÃO JOÃO

Quem sobe a serra no sentido Quartel São João já deve ter se perguntado como surgiu este vilarejo que, embora afastado, guarnece de tão hospitalidade e serventia.

Bom, segundo relatos, antigamente o local era cerrado puro, cortado por uma estrada supostamente aberta por bandeirantes, que levava os viajantes ao Rio Indaiá, ao Arassá e à Fazenda do Sr. João Eloy.

Ao lado direito do “corguinho das pedreira” residia “Zuino Carlota” e logo abaixo Pedro Alves, pai de Antônio Alves, vulgo “Toim Alves”, e nas mediações a já aclamada fazenda do Sr. João Eloy.

Ante a religiosidade peculiar da época, as missas eram realizadas diretamente nas fazendas das mediações, sendo que o Monsenhor que as celebravam era levado por conta exclusiva dos fazendeiros da região.

Segundo o que contam os mais antigos, nessas idas e vindas o Monsenhor da época pediu aos fazendeiros João Eloy e Pedro Alves que doassem uma pequena porção de terra onde se construiria uma capela, a fim de que as missas fossem estendidas à todos que residiam na região.

Nesta época, residiam nas intermediações o Sr. João Alvim, Pedro Salvino, Justino, “Zuino da Carlota”, Horácio, “Mane Coco”, “Pedro Cem”, “João Brisa”, “Maria Bananeira” dentre outros.

Feito o pedido, as terras foram doadas à igreja e com ajuda dos que ali viviam foi destocado o cerrado e erguida a primeira capela, feita de barro, madeira e sapé, que até então não tinha como padroeiro São João Batista.

Quanto a São João Batista, esse foi aclamado padroeiro após a construção da capela, tendo-se em vista a devoção dos fazendeiros que doaram as terras para a sua construção que, além do terreno, doaram também uma imagem do Santo à igreja, imagem esta que até hoje guarnece suas dependências.

Como as missas foram unificadas nesta capela, construída nas proximidades da já citada estrada dos bandeirantes, andarilhos e pessoas que não tinham onde morar começaram a freqüentar mais as fazendas que circundavam o templo, onde trocavam serviços por comida e abrigo.

Com a construção de moradias pelos fazendeiros, começou então a surgir um pequeno comércio local, com figuras pitorescas da época como o açougueiro “Nico Cortador”, Vírgilio Tosta e “Juca Tudo”, que foi o primeiro farmacêutico da região, à época mais um curandeiro que se utilizava de raízes para curar os doentes. Outro farmacêutico da época foi Walter Moreira, advindo das intermediações do vilarejo do Gordura.

Um dos primeiros estabelecimentos comerciais que surgiu no local foi a venda do Sr. Bernardes Eloy, onde se comercializava alimentos, bebidas, secos e molhados em geral.

A economia do pequeno arraial, à época, girava em torno da pecuária, engorda de porcos e da agricultura nas lavouras de café e milho.

As negociações se davam por meio da venda ou troca de produtos, sendo muito comum se trocar trabalho por comida e hospedagem.

O beneficiamento de arroz, feijão, café e outros produtos agrícolas era feito pelos vários monjolos¹ que existiam no local, movidos pelas vastas quedas d’águas existentes na região.

A idealização e construção da primeira escola no vilarejo ficou a cargo de Antônio Salvino, pois os estudos à época somente eram ministrados aos filhos dos fazendeiros, que por sua vez pagavam os “mestres” para alfabetizarem seus rebentos no âmbito de suas fazendas.

Com o crescimento do arraial, várias famílias ali se instalaram dentre as quais pode-se citar a Família Ferreira, Família do “Ovídio da Ponte Funda”, Família do “João Ermínio”, Família Líbano, Família Alcântara, Família Cunha, Família Rodrigues, Família Gonçalves, entre outras.

Com o passar do tempo, o arraial foi ganhando vida e se desenvolvendo, chegando ao ponto de ter cinco armazéns, duas farmácias, cartório, açougue, olaria, máquina de descascar (beneficiar) arroz e até uma jardineira² que fazia o transporte dos moradores locais às cidades vizinhas.

Nesta época, os fazendeiros da cercania se juntaram no mês de junho para celebrar São João Batista, com queima de fogueiras, celebração de missa, quermesse³, leilão de prendas dentre outros eventos, festa esta que se perfaz até os dias atuais e que é muito aclamada por todos que ali visitam.

Nesse ponto, acredita-se que a tradicional festa de São João Batista, no vilarejo de Quartel São João, seja até mesmo centenária.

 FIM

OBSERVAÇÕES:

Este texto foi escrito com base em relatos verbais de moradores antigos do vilarejo e por isso não temos as datas precisas dos acontecimentos.
Se o leitor possui algum outro dado histórico que possa complementar o presente texto, ou até mesmo sabe ou possui algum documento que conte uma outra versão do surgimento do Quartel São João, entre em contado conosco através do e-mail: tanierlon@gmail.com e colabore para que possamos divulgar a história dessa querida terra.
 

AGRADECIMENTO:

Em especial, gostaríamos de agradecer ao Sr. Joaquim Gonçalves da Silva que nos relatou com muita boa vontade o que acima se descreveu, contribuindo circunstancialmente à perpetuação e divulgação de nosso querido Quartel São João.

O Sr. Joaquim Gonçalves da Silva nasceu na década de 20 e é casado a mais de 62 anos com a Sra. Maria Conceição da Silva. Contemporâneo do Quartel São João, pai de 14 filhos, 42 netos e 20 bisnetos.
 Fica registrado nosso muito obrigado ao Sr. Joaquim Gonçalves da Silva.

Texto:

Daladier Rodrigues de Alcântara Júnior

Configuração:

Tanierlon Rodrigues de Araújo
 


[1] Monjolo: Engenho tosco, movido a água, para pilar milho e, primitivamente, para descascar café.
[2] Jardineira: Ônibus aberto, de bancos paralelos.
[3] Quermesse: Feira beneficente, com barraquinha, leilão de prendas, etc.

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